domingo, 30 de março de 2008

Yin e Yang

Se o Sol é a mais brilhante
Das estrelas que há no céu,
E a Lua é a sua amante
Vestida só com um véu,
Porque são raras as vezes
Que partilham o calor?
Porque esperam tantos meses
Por um momento de fulgor?
Se o inconsciente alento,
Que dá vida ao respirar
Não é mais que mero vento
Que o coração faz soprar,
Porque teima o pensamento
Em fazer-me suspirar?
Se até o mais simples dia
Se divide em duas partes,
Sem recorrer a magia
Ou outras estranhas artes,
Porque não há-de o coração
Ter dois lados bem distintos?
Um, onde vive a razão,
Outro, onde moram os instintos!
Se o valor da felicidade
Compra um sorriso ao olhar
Que ofereço com amor,
Porque é que a falsa verdade
Que teimas em me mostrar
Apaga o fogo que arde
Com lágrimas da mesma cor?
Neste estranho universo
Que é fruto do “Big Bang”,
Ainda resta algum calor.
Tu és o Yin neste verso,
Mas serei eu o teu Yang
Neste poema ao amor?
Talvez descubra a razão,
Assim a sorte o permita,
Entretanto...
Há um coração
A viver como eremita!

domingo, 23 de março de 2008

Ponto fraco

Já dei saltos para o rio
De rochas bem escarpadas,
Já nadei com muito frio,
Em manhãs bem nubladas.
Já lutei para entrar no mar,
Contra a rebentação,
Com os braços sempre a remar
À espera da ocasião.
Não tenho medo das ondas
Que o mar faz ao respirar,
Gosto de as ver redondas,
Ter o prazer de as surfar.
Já fiz algumas descidas,
Em encostas inclinadas,
Já caí e já fiz feridas,
Já tive as mãos arranhadas.
Já trepei árvores frondosas,
Para espreitar os ninhos
Onde as aves cuidadosas,
Criam os seus passarinhos.
De todas estas aventuras
Que tive o prazer de gozar,
Mesmo as que foram duras,
Faço intenção de guardar.
Pensava eu que era forte,
Quase em todos os sentidos,
Vivi à conta da sorte,
Já tive ossos partidos.
Agora, quando te sinto,
Ou se te vejo a passar,
Adormece-me o instinto,
Apressa-se o respirar.
E então quando me dás
O prazer do teu olhar,
Fico à espera que te vás,
Não sou capaz de andar.
Provocas em mim tremuras,
E no calor do momento,
Tenho medo das alturas
Onde nasce o sentimento.
Da minha forma de ser,
Apenas resta um caco!
Bem… tudo isto deve ser,
Porque és o meu ponto fraco!

domingo, 16 de março de 2008

Quanto custa um beijo teu?

Os teus olhos são fogueiras
Que aquecem os meus dias
E os enchem de calor.
Podes dizer-me o que queiras,
Mas não mates as fantasias
Que alimentam o amor.
O teu olhar é o horizonte
Onde mora o pôr-do-sol,
Os teus lábios são a fonte
Onde bebe o rouxinol.
O teu jeito de sorrir,
Quando estás a ser sincera,
À rosa, ofusca o florir,
Num dia de Primavera.
Os teus cabelos a voar,
Livres como o pensamento,
Fazem as nuvens perguntar,
Porque as ignora o vento.
Todos os belos elementos,
Que compõem o teu rosto,
Inflamam-me os sentimentos,
Aquecem-me mais do que Agosto.
A tua forma de andar
É um hino à alegria,
Escrito com subtileza.
E até me leva a pensar,
Que houve uma fada, um dia,
A abençoar-te com a beleza.
Vivo a vida simplesmente,
Passo o tempo a sonhar,
Não tenho dinheiro meu!
Mas agora e de repente,
Eu tenho de perguntar...
Quanto custa um beijo teu?

sexta-feira, 14 de março de 2008

Meu rio dourado

Eu já fui filho de um rio,
Na idade de menino,
E tantas vezes com frio,
Enfrentei o meu destino.
Nadei entre as suas margens,
Embalado pela corrente,
Foram tantas as viagens
Que eu lembro saudosamente.
Eu já fui filho de um rio,
Que me ensinou a usar
Um anzol com um fio,
Para o peixe eu enganar.
Eu já fui filho de um rio
Que corre bem-humorado,
Num leito que não é esguio,
E nas margens é escarpado.
Sentei-me um dia a mirar
O fim do entardecer,
E vi a água a brilhar
Com as cores do anoitecer.
E foi quando eu estava ali
Sentado a contemplar
Aquele simples tesouro,
Que finalmente entendi,
Porque lhe quiseram dar
O belo nome de Douro.
Hoje, quando eu mergulho
Nas águas da minha infância,
Consigo ouvir-lhe o barulho,
Ainda lhe sinto a fragrância.
Eu nasci à beira-rio,
E ali fui educado,
Quando me lembro… sorrio,
Passei lá um bom bocado.
Se eu voltar a nascer
Noutra cidade ou país,
Certamente vou querer ser
Filho de um rio feliz.
Eu já fui filho de um rio,
Não vai dar para o negar!
Mas… quando chega o Estio,
Eu sou amante do mar!

sábado, 8 de março de 2008

Pobreza

Há tantas coisas na vida,
Que nos surgem pela frente,
E se gravam no olhar.
Muitas delas deixam ferida
Na limpa alma da gente,
E de uma forma sentida,
Até nos fazem chorar.
Um braço meio estendido,
De um corpo que o segura,
Dono de um olhar sofrido,
Para quem a vida é dura.
Uma ponte sobre um rio,
Ou que atravessa canais,
Por baixo, um velho com frio,
Dorme embrulhado em jornais.
Um cartaz em português,
Escrito à maneira do Leste,
E tu finges que não vês,
Ou dizes então que já deste.
Alguém que levanta o braço,
Dizendo: - Aqui tem lugar!
Venha cá, este é o seu espaço,
Faz favor de estacionar!
Um rapaz esfarrapado,
Agarrado a uma viola,
Onde um acorde bem dado,
Se troca por uma esmola.
Um corpo que está à venda,
Numa esquina já polida,
Num trabalho sem agenda,
De uma menos fácil vida.
A todos estes momentos,
Que assombram os olhares,
A ausência de sentimentos,
Já lhes deu nomes vulgares.
Há quem lhes chame azar,
Ou mera falta de sorte,
Há quem pare para pensar,
Há também quem não se importe.
Há muitos que são “doutores”,
E são senhores da certeza,
Guiam-se por outros valores
E a isto… chamam pobreza.
Eu… eu tenho só de lembrar
Que este é um mundo de cobiça,
E mesmo quase a chorar,
Agora que anoitece
Digo bem alto a gritar,
Tudo isto acontece,
Porque há falta de justiça!

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